livro “João Goulart, uma biografia”

Jango, o conciliador

Lançando extensa biografia sobre João Goulart, historiador Jorge Ferreira fala sobre a importância do ex-presidente e afirma: ele não foi covarde, foi sensato

Ronaldo Pelli

  • João Goulart, em 1962 / imagem wikimedia-cc João Goulart, em 1962 / imagem wikimedia-cc

    Tarefa, no mínimo, complexa, a que o historiador Jorge Ferreira se propôs: descrever o ex-presidente João Belchior Marques Goulart (1919-1976), em toda a sua humanidade. Não queria compactuar com o discurso que repete uma série de injúrias contra o político que foi, ao mesmo tempo, sucessor de Getúlio Vargas, e cunhado de Leonel Brizola, com quem teve uma amizade conturbada. Nem com o tom de vitimização, que o coloca numa posição passiva em relação ao golpe de 1964, que o tirou do poder. O resultado desse trabalho é o livro “João Goulart, uma biografia”, um calhamaço de mais de 700 páginas, que tenta evidenciar um personagem indispensável para um episódio decisivo da história recente do Brasil.

    Segundo Ferreira, professor titular de História do Brasil da UFF, foram dez anos de trabalho, em pesquisa ou redação, que não se concentraram apenas no período em que Jango estava em evidência. O livro tenta reconstituir da infância de Janguinho, no Rio Grande do Sul, ao fim de sua vida, no exílio, entre suas fazendas no Uruguai e na Argentina, onde morre, em mais um episódio envolvido em teorias que resvalam na conspiração.

    Conspiração, aliás, que Jango enfrentou antes, durante e depois da presidência, vinda de todos os lados ideológicos, por ser, em tempos de radicalizações políticas, um homem que valorizava a democracia, o diálogo e a conciliação. Ferreira se atém aos fatos e tenta mostrar, na medida do possível, o que realmente aconteceu durante o governo Jango, trazendo à luz as ações – e suas consequências – do então presidente que desembocariam numa ditadura de 21 anos. Também apresenta como a figura de Goulart foi avaliada por pesquisadores em seguida: geralmente com um desprezo, além de desumano, desnecessário.

    Em entrevista sobre o seu livro e seu biografado, o professor sugere que devemos pensar em Jango, não como um medroso que saiu do governo sem lutar, mas como um homem que evitou uma guerra civil e o derramamento de sangue de irmãos. “Jango, nesse aspecto, não foi covarde. Foi sensato”, opina. Leia o restante da entrevista:

    Revista de História – Qual era o objetivo de escrever “João Goulart, uma biografia”?

    Jorge Ferreira – O livro tem o objetivo de retirar Jango do limbo do esquecimento em que ele se encontra. Embora tenha sido um personagem importante da vida política do país, as análises sobre ele, quando raramente surgem, via de regra o definem como demagogo, populista e incompetente ou, então, vítima da grande conspiração de empresários brasileiros em conluio com o governo norte-americano. Jango, quando é lembrado, é para ser culpabilizado ou vitimizado. Meu objetivo, no livro, é compreender o personagem. E somente compreendemos quando conhecemos.

    "Jango, no ministério do Trabalho, aproximou-se do
    movimento sindical e passou a dialogar com os trabalhadores
    e líderes sindicais. Para a direita e os udenistas, tratava-se
    de algo inconcebível para um ministro de Estado."

    RHBN – Como você interpreta essas desqualificações ao ex-presidente João Goulart?

    Jorge Ferreira – Desde que Goulart entrou na vida pública, em fins de 1945, e, particularmente, quando foi identificado como pessoa próxima a Vargas, começaram as críticas sobre ele veiculadas na imprensa. Mas sua atuação como ministro do Trabalho desencadeou uma séria de ataques e insultos vindo dos setores conservadores, particularmente da UDN. O que incomodava os conservadores é que Jango, no ministério do Trabalho, aproximou-se do movimento sindical e passou a dialogar com os trabalhadores e líderes sindicais. Para a direita e os udenistas, tratava-se de algo inconcebível para um ministro de Estado. Daí surgiram as críticas: demagogo, manipulador, incompetente, instigador de greves, agitador etc. A estas denúncias de cunho político, juntaram-se outras, de cunho moral: mulherengo, alcoólatra etc. Quando, ao final de sua gestão no ministério, os opositores perceberam que Jango se tornara o herdeiro político de Getúlio Vargas, os ataques aumentaram ainda mais, surgindo a expressão “República sindicalista”

    As imagens negativas sobre Goulart tomaram outra dimensão após o golpe militar de 1964. Os golpistas, civis e militares, passaram a desqualificar o regime democrático que derrubaram e a pessoa de Goulart em particular. Dele, os vitoriosos de 1964 retomaram os ataques formulados anteriormente, acrescido de adjetivos como corrupto, irresponsável, despreparado etc. Jango, no exílio, sequer podia se defender das acusações. As esquerdas, por sua vez, também contribuíram para o processo: “populista”, por exemplo, foi conceito criado nas Universidades para desqualificar lideranças anteriores a 1964.

    "Jango era um conciliador porque buscava o entendimento
    entre as partes. Seu objetivo era alcançar acordos e
    compromissos políticos."

    RHBN – Ser um presidente “conciliador” num momento de exacerbações, como no início da década de 1960, foi o maior erro de Jango?

    Jorge Ferreira – Em 1961 o país estava à beira da guerra civil. Jango, ao aceitar o parlamentarismo, evitou o conflito de um país dividido e conseguiu, logo a seguir, unir a sociedade em torno da volta ao presidencialismo. Ao longo de seu governo, ele se esforçou para ter maioria parlamentar no Congresso Nacional. Para Jango, assim como para JK, era fundamental unir PSD-PTB para obter maioria parlamentar e isolar a direita, representada pela UDN. A estratégia de Jango era negociar as Reformas de Base via pactos entre pessedistas e trabalhistas. Mas em uma coalizão de centro-esquerda, as reformas não poderiam ser com o programa máximo, como queriam as esquerdas, mas nem também com um programa tímido, como queriam os pessedistas. Nesse sentido, Jango era um conciliador porque buscava o entendimento entre as partes. Seu objetivo era alcançar acordos e compromissos políticos. Ocorre que o PTB se esquerdizava desde os anos 1950 e a conjuntura internacional era marcada pelo contexto maniqueísta da Guerra Fria. Nesse clima, a aprovação das reformas negociadas no Congresso Nacional tornou-se inviável.

    Goulart compreendeu o que ocorreu nos dias 31 de março e 1º de abril de 1964. Não eram pequenos grupos civis e militares isolados da sociedade que tentavam golpes. Tratava-se do conjunto das Forças Armadas com o apoio dos principais governadores de estados: Guanabara, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul – com suas polícias militares e civis. Mais ainda, o presidente do Congresso Nacional conclamou os militares a deporem Goulart e o presidente do STF silenciou-se. O golpe também tinha o apoio dos meios de comunicação, do empresariado e de amplas parcelas das classes médias. Jango ainda soube, na manhã de 31 de março, que o governo norte-americano apoiaria em termos financeiros, diplomáticos e militares o governador mineiro Magalhães Pinto. Naquela manhã, ele também tomou conhecimento da chamada Operação Brother Sam.

    "Jango deve ser valorizado por aquilo que não fez:
    jogar o país em uma guerra civil que seria agravada
    com a intervenção militar dos Estados Unidos."

    Jango deve ser valorizado por aquilo que não fez: jogar o país em uma guerra civil que seria agravada com a intervenção militar dos Estados Unidos. É muito fácil acusar Jango de não liderar a guerra civil. Afinal, o sangue que correria seria dos outros, sobretudo da população civil. Jango, nesse aspecto, não foi covarde. Foi sensato. É preciso considerar, também, que os golpistas civis e militares não planejavam implantar uma ditadura de 21 anos. O objetivo era depor Goulart. O presidente acreditou que, em breve, a normalidade democrática retornaria ao país. Não foi o que aconteceu. Mas nós sabemos disso hoje. Os personagens que viveram aqueles acontecimentos não poderiam conhecer o futuro.

    RHBN – Afinal: Jango foi assassinado ou teve uma morte “natural”?

    Jorge Ferreira – No livro, as considerações sobre a morte de Jango são similares as de Moniz Bandeira na última edição de seu livro. Há o caso do depoimento do uruguaio Mário Barreiro Neira. Preso no Brasil em presídio federal de segurança máxima, ele alegou ter trocado os remédios de Jango por veneno. As investigações da Polícia Federal e do Ministério Público desqualificaram suas afirmações. Ele foi preso no Brasil por vários crimes, mas quer evitar a extradição para o Uruguai, onde também foi condenado por diversos assaltos. O ministro do STF, José Neri da Silveira, julgou que Neira não praticou crime político algum no Uruguai, mas, sim, contra o patrimônio. Pessoalmente, eu não descarto a possibilidade de atentado. Pode ter ocorrido. Mas, até o momento, não há prova alguma de que tenha sido efetivado. Jango, por sua vez, era um cardiopata. Seu primeiro acidente cardiovascular ocorreu ainda em 1962. Sofreu um enfarto em 1969. Além disso, levava uma vida sedentária, fumava, gostava de uísque, era hipertenso e alimentava-se de carnes gordurosas. No exílio, passou a sofrer um processo depressivo. Os remédios que controlavam a pressão arterial prejudicavam a produção de serotonina, deflagrando ou agravando a depressão.

    Os boatos sobre o atentado surgiram porque sua morte foi próxima às de Juscelino Kubistchek e de Carlos Lacerda. Mas o historiador lida com provas e indícios. Desse modo, embora não tenha havido autópsia, a hipótese de morte natural é, no momento, a mais plausível.

    RHBN – Por que há tantas acusações de corrupção contra Jango?

    Jorge Ferreira – No livro, o leitor pode conhecer as qualidades e os defeitos de Jango – como ocorre em qualquer ser humano. Sobretudo, me esforcei para mostrar suas ambigüidades – algo também humano. Mas não encontrará denúncias de corrupção. Goulart era um homem rico. Sua riqueza foi herdada do pai e multiplicada por ele antes de entrar para a vida pública em 1945. Ele não precisava roubar. Depois do golpe militar, Jango e JK sofreram uma série de acusações de práticas de corrupção, todas sem fundamentos, baseadas em calúnias e difamações. Mesmo sem poderem se defender, nenhuma acusação foi comprovada.

    RHBN – O quanto Brizola ajudou e o quanto ele atrapalhou Jango na sua carreira política?

    Jorge Ferreira – João Goulart e Leonel Brizola mantiveram relações políticas de mútua dependência. Ao longo dos anos, Goulart apoiou politicamente Brizola no Rio Grande do Sul, enquanto Brizola apoiava Goulart no plano nacional. Foi Brizola que lutou, de maneira corajosa, pela posse de Jango na presidência da República durante a Campanha da Legalidade. Nesse episódio, Brizola teve um papel extremamente positivo, defendendo a Constituição e a legalidade democrática. Contudo, durante o mandato de Goulart na presidência da República, Brizola radicalizou à esquerda e tornou-se grande opositor do presidente. Diversos partidos e organizações de esquerda, sob a liderança de Leonel Brizola, fundaram a Frente de Mobilização Popular. Junto com o PCB, a FMP exigia que Goulart rompesse com o PSD e governasse apenas com as esquerdas – mesmo que perdesse a maioria no Congresso Nacional. Jango, nesse sentido, teve que enfrentar as oposições de direita, como Carlos Lacerda e a máquina anticomunista, e as de esquerda, sobretudo lideradas por Leonel Brizola. No conflito entre esquerdas e direitas, o regime da Carta de 1946 se desestabilizou e encontrou seu fim em 1º de abril de 1964.

    Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/entrevista/jango-o-conciliador

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Enquanto isso: Em nome de Deus

No tempo das missões jesuíticas no Japão… …outras missões, outras paixões, outras facções

Martinho Lutero e suas sentenças. O terremoto provocado pelo monge agostiniano atinge todas as nações, gerando conflitos que saem do campo meramente religioso em um mundo onde fé, política e razão de Estado andam juntas. A resposta católica tem armas poderosas: Trento e Inácio, um concílio e uma nova ordem.

Enquanto a Alemanha se esforça para conseguir a conciliação, a Inglaterra oscila entre a fidelidade ao papa e o orgulho de seus soberanos. A França, por sua vez, condena o calvinismo com massacres. O século XVI parece o reino da intolerância, deixando para o século seguinte o simbólico episódio de Giordano Bruno queimado vivo no coração de Roma.

1540

Com a bula Regimini militantis Ecclesiae, o papa Paulo III reconhece a Companhia de Jesus.

1545

É aberto o Concílio de Trento, convocado pelo papa Paulo III para reafirmar a fé e a unidade da Igreja diante da difusão do protestantismo. Interrompido duas vezes, será encerrado 18 anos depois.

1546

Morre aos 62 anos o reformador Martinho Lutero, nacidade alemã de Eisleben, onde nasceu.

1547

Treze anos após ter rompido com o pontífice romano e ter se declarado chefe supremo da Igreja de Inglaterra, morre o reiHenrique VIII.

1549

Tomé de Sousa é enviado de Portugal para o Brasil como primeiro governador geral. Na comitiva que chega à Bahia estão os primeiros jesuítas: padre Manuel da Nóbrega e cinco companheiros.

1553

Sobe ao trono inglês Maria Tudor. Seu reinado será marcado pela tentativa de restauração do catolicismo como religião oficial do país. Anos de perseguições aos protestantes se anunciam na ilha.

Mais jesuítas para a missão. Chega ao Brasil, com outros companheiros, o padre José de Anchieta.

1555

Lutas e sangue na Inglaterra, conciliação na Alemanha. É assinada a Paz de Augsburgo: os príncipes do Sacro Império Romano Germânico, reunidos com o imperador, reconhecem oficialmente a doutrina luterana. Cada príncipe alemão terá o direito de escolher entre ela e o catolicismo, vinculando os próprios súditos à sua escolha.

Surgem as primeiras igrejas calvinistas na França.

1556

Morre em Roma o fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola. Passaram-se dezesseis anos de seu reconhecimento pontifício, e a ordem já conta com cerca de mil membros e mais de cem casas.

1558

Morre Maria e sobe ao trono da Inglaterra Elizabeth I. No ano seguinte, a rainha declarará a independência de Roma da Igreja Anglicana, da qual ela se torna a suprema governante.

1564

João Calvino morre em Genebra.

1571

Uma esquadra (Liga Santa) formada por navios da República de Veneza, do Reino da Espanha, do Estado Pontifício e dos Cavaleiros de Malta derrota a frota do Império Otomano na batalha de Lepanto, na Grécia, freando, de certa forma, a expansão islâmica na Europa.

1572

Na Noite de São Bartolomeu (24 de agosto), milhares de huguenotes (protestantes calvinistas) são mortos em Paris pelos católicos, por ordem do rei Carlos IX. Dias depois, a perseguição se estende ao resto da França.

1578

O rei português D. Sebastião I desaparece na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos. Abre-se uma grave crise dinástica para a Coroa portuguesa, que levará, dois anos depois, à União Ibérica.

1582

Após cinco anos de estudos, é adotada a reforma do calendário por iniciativa do papa Gregório XIII, que dele tomará o nome (calendário gregoriano). Corrigida a medição do ano solar, foram suprimidos dez dias.

O padre jesuíta Matteo Ricci é destacado para iniciar a missão na China. Nos anos seguintes, adotará cada vez mais o vestuário e até os costumes dos intelectuais chineses, adeptos do confucionismo, para poder pregar a doutrina cristã com mais facilidade.

1594

Henrique de Navarra é proclamado rei da França com o título de Henrique IV. Para subir ao trono, renunciara ao protestantismo e se convertera ao catolicismo no ano anterior. Quatro anos depois, com o Edito de Nantes, confirmará o catolicismo como religião oficial do Estado, mas assegurará aos huguenotes a liberdade de culto.

1600

O frade dominicano Giordano Bruno, acusado de heresia, é condenado à morte na fogueira pela Inquisição romana.

1603

Após 45 anos de reinado, morre Elizabeth I da Inglaterra. Seu sucessor é Jaime I, da dinastia Stuart.

1606

Como reação a um atentado contra a vida do rei cometido no ano anterior por um grupo de católicos (Conspiração da Pólvora), o Parlamento inglês aprova uma série de leis repressivas, que atacam tanto os católicos quanto os dissidentes protestantes, como os puritanos.

1610

Em 14 de maio, termina o reinado de Henrique IV na França: François Ravaillac,um fanático católico, golpeia o rei numa rua de Paris.

1616

No mês de abril, o mundo fica um pouco mais pobre: morrem Miguel de Cervantes, na Espanha, e William Shakespeare, na Inglaterra.

1620

Um grupo de protestantes fugido da perseguição religiosa na Inglaterra e refugiado nos Países Baixos, deixa a Europa a bordo do Mayflower, chegando em novembro a Plymouth, na América do Norte. São os Pilgrim Fathers (Pais Peregrinos), segundo núcleo colonizador no território que viria a ser os EUA.

Fonte: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/artigos-revista/enquanto-isso-em-nome-de-deus

Af-Pak

23 de julho de 2011 às 12:26

Pepe Escobar: A verdade sobre o “Af-Pak”

por Pepe Escobar, Asia Times Online

Tradução do Coletivo da Vila Vudu

Resenha de SYED SALEEM SHAHZAD, Inside al-Qaeda and the Taliban: Beyond Bin Laden and 9/11 [Por dentro da al-Qaeda e do Talibã: além de Bin Laden e do 11/9], Pluto Press, California [24/5/2011]. ISBM-13: 978-0745331010. US$26. 272 pp.

Pense em Saleem Shahzad como um avião-robô drone Predator paquistanês, carregado não de bombas, mas de palavras, sobrevoando todo o “Af-Pak”. Em vez de detonar “terroristas” – e uma festa de casamento dos pashtuns – os mísseis Hellfire de Saleem Shahzad detonam, completamente, os muros do labirinto concêntrico, de pressupostos e desinformações, que é tudo que o ocidente sabe sobre o “Af-Pak”.

A editora Pluto Press – em gesto de compaixão – deveria enviar imediatamente um exemplar do livro ao autoproclamado ás da ‘contrainsurgência’ e atual diretor geral da CIA, general David Petraeus, para nem falar da equipe de sicofantas de coturnos nunca em terra que o cercam, ou dos “terrorism experts” de sofá, variedade “think tanks” –, para que possam pelo menos começar a ter alguma ideia aproveitável sobre o que realmente acontece na vida real, no “Af-Pak”.

[À parte: Saleem Shahzad foi meu colega e meu amigo. Trabalhamos sincronizados imediatamente depois do 11/9 – ele em Karachi, eu em Islamabad/Peshawar. Depois, nos encontramos várias vezes em Karachi. Infelizmente nunca viajamos juntos às áreas tribais ou ao Afeganistão (habituei-me a usar intérpretes e contatos do Punjab ou pashtuns).]

Foi depois da invasão do Iraque, em 2003, que Saleem – chefe da sucursal de Asia Times Online no Paquistão – fixou a reputação de mais empenhado e brilhante jornalista que investigava o labirinto das áreas tribais paquistanesas. Por um desses golpes trágicos da história, seu livro foi lançada apenas três semanas depois do assassinato predefinido [orig. targeted assassination] de Osama bin Laden, no assalto a Abbottabad; e menos de uma semana antes de o próprio Saleem ser sequestrado, torturado e assassinado. Não, Saleem não foi assassinado pela “al-Qaeda”. A investigação sobre seu assassinato no Paquistão insiste em não andar para lugar algum (e assim com certeza permanecerá); mas a melhor aposta até agora, em matéria de culpados, parece ser uma facção da sub-bandidagem dos Inter-Services de Inteligência do Paquistão (ISI), com autorização dos níveis superiores.

No pain no gain. “Só a luta ensina”.

Mesmo para quem conheça bem o Paquistão, as áreas tribais e o Afeganistão, esse livro pode ser tão difícil quanto uma trilha no Hindu Kush – sobretudo pelo esforço para não confundir uns com outros, um elenco alucinante de personagens do que o próprio Saleem, em perfeita analogia, chama “uma versão al-Qaeda das Mil e Uma Noites”.

O que se tem aqui é Saleem, como um Sir Richard Burton paquistanês, traduzindo para o mundo as aventuras hardcore de atores crucialmente decisivos, como o cruel Tahir Yaldochiv, senhor-da-guerra uzbeque e seu exército privado de 2.500 jihadis degoladores; ou o capitão Kurram e seu irmão mais velho, major Haroon – exemplos perfeitos de oficiais de médio escalão das forças armadas do Paquistão que renunciaram aos postos e encontraram os próprios destino e missão no trabalho de reciclar as táticas medievais da guerrilha Talibã, servindo-se, para isso, de lições da Guerra do Vietnã.

Haroon, por exemplo, avalia, corretamente, que o apoio que o exército do Paquistão deu aos Talibã afegãos sempre foi apoio apenas tático –, parte da política oficial de Islamabad para criar “profundidade estratégica” contra a Índia; o mesmo se pode dizer do apoio à milícia do Lashkar-e-Taiba, ferramenta útil para o Paquistão, no caso de guerra contra a Índia.

Foi Haroon quem recrutou a maioria dos melhores e mais ideologicamente comprometidos jovens guerreiros que integram a já legendária – em termos do “Af-Pak” – Brigada 313 do comandante Ilyas Kashmiri.

E foi Haroon quem construiu conceitualmente toda a estratégia matadora de cortar as linhas de suprimento da OTAN, impedindo o avanço dos contêineres que chegam ao porto de Karachi, ao sul – essenciais para a sobrevivência da ocupação –, 80% dos quais têm de passar pelo desfiladeiro Khyber; e 20% vão para Kandahar.

E, se Haroon for opinião na qual se deva confiar, 2012 será o inferno na terra. Harron disse a Saleem, em Karachi, que em 2012 os Mahdi reaparecerão “para comandar as forças muçulmanas no Oriente Médio e derrotar os exércitos do ocidente comandados pelo anticristo [Dajjal]”.

Fica aberta à discussão a questão sobre quem é o Dajjal, nessa cosmologia: o presidente dos EUA, Barack Obama; o Pentágono, o primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu ou “Valem todas as anteriores”.

Burning of the midnight lamp[1]

A espantosa quantidade de informação contida nesse livro é dose capaz de manter acordados por muitos anos os interessados em Hindu Kush. Dentre outras preciosidades, Saleem conta:

– como a al-Qaeda conseguiu unir duas tribos, os Mehsud (os “panteras” do Grande Jogo do século 19) e os Wazir (os “lobos”) e, assim, obteve controle completo sobre a área tribal do Waziristão Sul; antes, não havia ali mais que uma espécie de posto avançado dos Talibã da província de Helmand, sob influência do Talibã afegão; e como a al-Qaeda selecionou o Waziristão Norte, “perdedor”, para ali estabelecer seus quartéis-generais internacionais; e

– que esse foi o plano de jogo para reconstruir a al-Qaeda e os Talibã, depois do 11 de setembro.

Saleem também conta como o legendário Jalaluddin Haqqani – sempre de cabelos e barbas tingidos e sempre em contato próximo com os serviços secretos paquistaneses (ISI) – nunca deixou de ser o principal Talibã senhor-da-guerra no Waziristão Norte; e como, por isso, o ISI cuidou de informá-lo de que os ataques contra ele não passariam de encenação.

Como Sirajuddin, filho de Haqqani, no Waziristão Norte, e Baitullah Mehsud, no Waziristão Sul, conseguiram ascender à posição de respeitados tenentes do líder Talibã Mullah Omar, que confia neles; e como Sirajuddin Haqqani converteu-se no mais perigoso comandante do Talibã afegão que a OTAN enfrenta hoje. Como um dos principais ideólogos da al-Qaeda, o egípcio Sheikh Essa al-Misri, “vendeu” a estratégia deles aos líderes das áreas tribais.

Como a principal ‘reestreia’ dos Talibã, na grande ofensiva da primavera de 2006 – quando Washington decidiu que os Talibã já estariam mortos e enterrados – foi também uma história de sucesso da al-Qaeda, turbinada por 4.000 novos combatentes chechenos, uigures, uzbeques e árabes de diversas origens.

Como o Estado Islâmico do Waziristão Norte e o Estado Islâmico do Waziristão Sul conseguiram reunir, no norte, mais de 10 mil jihadis de Karachi, Lahore, Quetta e Peshawar, mais 12 mil das tribos – dos quais 3 mil afegãos e 2 mil de outras nacionalidades; e, no sul, 13 mil das tribos, inclusive algumas centenas de uzbeques e árabes de diversas origens. Assim, o Mulá Omar tem para começar, exército de, no mínimo, 40 mil combatentes.

Como o principal emissário de Omar, Mullah Dadullah – aproveitando-se de contatos íntimos com a resistência sunita no Iraque – divulgou entre as tribos o conceito de suicida-bomba como forma legítima dejihad.

Mas, sobretudo, como a al-Qaeda “modelou uma entidade paralela, Tehrik-e-Taliban Pakistan (TTP, Talibã Paquistaneses), para reforçar suas posições nas fortalezas naturais em sete agências tribais do Paquistão”.

Poucos sabem que o TTP foi criado, de fato, como tática diversionista – de modo que a al-Qaeda pudesse promover sua ideologia de jihad global rumo ao califato global, que jamais correspondeu ao que quer Mullah Omar (cujo único interesse é expulsar do Afeganistão os exércitos estrangeiros de ocupação). Mas o Talibã no Afeganistão não podia criticar o TTP, porque estavam ajudando os afegãos a combater as forças da OTAN-EUA.

A grande franquia tribal

A tese central do livro é essa – que a al-Qaeda “clonou” os Talibã Afegãos, para criar os Talibã Paquistaneses – dentre aquela miríade de grupos militantes –, para que tivessem como conduzir uma revolução islâmica dentro do Paquistão, como franqueados da al-Qaeda. Nas palavras de Saleem, “É a primeira franquia apoiada pela al-Qaeda, local, popular e absolutamente tribal, em todo o mundo”. É possível que o Pentágono e a CIA, em Langley, tenham conseguido entrever pelo menos uma fresta desse grande quadro – mas um pouco tarde demais, no que tenha a ver com “Af-Pak”.

A expressão “Af-Pak” foi cunhada pelo ex-enviado especial do governo Obama, Richard Holbrooke, em março de 2008. O problema é que chegou muito atrasada. Al-Qaeda tivera a mesma ideia muito tempo antes, já em 2002.

Saleem argumenta, a partir de entrevistas que fez com comandantes e estrategistas chaves, que, se a al-Qaeda não tivesse concebido “um plano de combate para enfrentar dois exércitos hostis [a OTAN no Afeganistão; e o exército paquistanês no Paquistão], a guerrilha no Afeganistão teria morrido no final de 2002 e seus militantes em retirada estariam cercados e dizimados já no início de 2003”.

Foi exatamente a impressão que tive, no Afeganistão, no outono de 2002: que a al-Qaeda estava em ruínas. Mas fato é que, no final de 2008, todas as sete agências tribais paquistanesas já estavam sob seu controle e influência.

Al-Qaeda apostava em que Washington acabaria por render-se a algum tipo de acomodação com os Talibã históricos com bases no Afeganistão, em conjunção com o exército paquistanês; a situação seria aproximadamente a mesma de meados dos anos 1990s. De diferente que, dessa vez, os Talibã Paquistaneses lá estariam para estragar a festa – e fazer ver aos afegãos que a Jihad não estava confinada ao Afeganistão: que tivera de globalizar-se.

Mas a al-Qaeda absolutamente não previu que os Talibã, com alguma esperteza, fossem seduzidos por Washington, por alguma espécie de acordo de partilha do poder (estamos hoje mais ou menos nesse ponto).

Há quem duvide que Mullah Omar prefira a jihad, se puder ter voz no poder em Kabul, para nem falar da possibilidade de caber-lhe gorda fatia das taxas de pedágio, no caso de a saga do óleo-gasoduto TAP (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão) algum dia chegar a bom termo.

Apesar de a al-Qaeda não ter previsto a massiva guerra de aviões-robôs pilotados à distância contra as áreas tribais, é evidente que vê como produtiva a crise humanitária gerada pelos drones e o bombardeio de terra arrasada que os EUA fazem contra as áreas tribais. Mais de um milhão de pessoas já abandonaram casa e terras em cinco das sete agências tribais: são um milhão de pessoas (e mais, se se consideram as famílias estendidas) que combaterão contra os EUA até o último alento.

Saleem argumenta que a guerra dos aviões-robôs drones tripulados à distância forçou a al-Qaeda a entrincheirar-se mais fundo no Hindu Kush, onde todas as montanhas se ligam e interconectam; que, se não pode vencer nos desertos do Iêmen ou o Iraque, nem nas selvas da Somália, talvez possa vencer nas áreas tribais, aliada a Talibã Paquistaneses “que se movem livres pelas montanhas, como a águia que luta e sobrevive”.

Já a águia norte-americana pensa diferente:o único modo de ‘vencer’ a guerra nas áreas tribais é ‘droná-los’ com bombas disparadas à distância, bombardeá-los sem parar, até que não reste uma alma viva.

E que fim levou Osama?

É interessante observar o que Saleem não diz sobre Osama bin Laden. Fica implícito que Osama e (hoje líder da al-Qaeda) Ayman al-Zawahiri, com algumas poucas centenas de jihadis, pelo menos depois que escaparam de Tora Bora no final de 2001, estavam amoitados em Shawal, literalmente terra-de-ninguém na encruzilhada entre o leste do Afeganistão, o Waziristão Sul e o Waziristão Norte.

Então, Osama some da narrativa – afinal, já permanecera “invisível” por anos. Reaparece depois dadébâcle de 2007 na Mesquita Vermelha (Lal Masjid) em Islamabad – tentativa da al-Qaeda para abrir um front na própria capital –, quando, segundo Saleem, Osama teria indicado Abu Obaida al-Misri para organizar um levante no Paquistão, para tornar ingovernável o país.

Se se pode crer na narrativa de Washington sobre Abbottabad – e há aí um imenso “se” –, Osama, naquele momento, já vivia em Abbottabad, mantido perfeitamente informado de tudo que acontecia no Paquistão.

Saleem acredita na tese da al-Qaeda, segundo a qual o ataque de 11/9 foi organizado para atrair os EUA para uma armadilha no Afeganistão; o Pentágono teria usado o 11/9 como pretexto para implantar-se nas encruzilhadas cruciais da Ásia Central e Sul; e há sempre a possibilidade de que se permitiu que acontecessem os ataques do 11/9, de modo a que o Pentágono pudesse expandir o que, depois, passou a ser conhecido como a doutrina da Dominação de Pleno Espectro.

Dado que Osama é relativamente ausente na narrativa – o que pode significar que seu papel, nos anos recentes, tenha sido só simbólico –, a verdadeira estrela é, de fato, Ilyas Kashmiri. Saleem foi (e ainda é) o único jornalista que jamais o entrevistou.[2] Destacando-se dentre uma série de jihadis operacionais substituíveis, cada um com seu modus operandi, Kashmiri impressionou tanto os ideólogos da al-Qaeda, que foi promovido a chefe do Comitê Militar e encarregado de expandir a jihad para a Ásia Central.

Para ele, o principal teatro de guerra sempre foi o Afeganistão e as áreas tribais paquistanesas, até que ajihad na Ásia Central – e na Índia – ganhou força. O mais extraordinário é que esse foi o plano do serviço secreto do Paquistão há 30 anos: construir um teatro de guerra para derrotar os soviéticos no Afeganistão e deixar que a Caxemira (e os Kashmiris [Caxemireses]) se autogovernassem na Índia. É imensa ironia da história que um Kashmir esteja hoje encarregado do mesmo plano… mas, dessa vez, para servir aos objetivos da Jihad global da al-Qaeda.

Pode-se discordar de Saleem atribuir poderes imensos à al-Qaeda. No final do livro, escreve que o objetivo da al-Qaeda é exaurir o Ocidente e, então, anunciar sua vitória no Afeganistão. Enquanto os Talibã Afegãos – não a al-Qaeda – não pararem de zunir à volta da OTAN em tempo integral, o ocidente não sairá do Afeganistão: por causa do ÓOleo-gasodutostão; por causa das suculentas bases militares, ali, ao pé de Rússia e China; por causa dos planos expansionistas da OTAN; por causa da abundância de recursos minerais a serem explorados.

E quando expõe os objetivos da al-Qaeda, a coisa vai ainda mais longe: “em seguida, a al-Qaeda aspira a ocupar a terra prometida do velho Khurasan, cujas fronteiras vão da Ásia Central ao Khyber Paktoonkhwa atravessando o Afeganistão, e daí expandir o teatro de guerra até a Índia”.

Nunca acontecerá. Mas é certo que essa “visão” não sumirá sem mais nem menos. Sobretudo, será mantida eternamente viva, enquanto houver norte-americanos e europeus ocupando o Afeganistão, e as áreas tribais paquistanesas continuarem sob o fogo mortal, infernal, dos aviões-robôs drones dos EUA pilotados à distância.

E quanto ao Irã?

O livro tem alguns pequenos problemas – como Saleem dizer que em meados dos anos 1990s o então presidente do Afeganistão Burhanuddin Rabbani e seu ministro de Defesa, o “Leão do Panjshir” Ahmad Shah Massoud, “permitiram que Osama bin Laden se movesse do Sudão para o Afeganistão”. A verdade é que Osama chegou quando os Talibã já estavam no poder e os tadjiques de Massoud eram a única oposição.

E há um grande problema: o que Saleem chama de ‘normalização’ das relações entre al-Qaeda e o Irã (discutimos muito furiosamente essa questão, por e-mail). Saleem argumenta que quando um diplomata iraniano foi sequestrado em Peshawar em 2008, a complexa rede tribal era comandada por Sirajuddin Haqqani. Muitos meses depois de negociações mediadas por Sirajuddin, Teerã recebeu seu diplomata, em troca da liberdade de agentes altamente qualificados da al-Qaeda que estavam presos no Irã – entre os quais Abu Hafs al-Mauritani, Suleiman Abu Gaith, Iman bin Laden – uma das filhas de Osama – e o egípcio Saif al-Adil.

Nunca se obteve qualquer confirmação, de Teerã; mas é difícil crer que, ainda que Teerã autorizasse passe livre para os jihadis da al-Qaeda rumo ao Iraque, Ásia Central ou Turquia, poder-se-ia dizer que Teerã e a al-Qaeda ter-se-iam tornado por isso, digamos, “íntimos”. Antes de qualquer outra coisa, porque a al-Qaeda tinha e continua a ter relações muito próximas com os sunitas linha-dura do grupo Jundallah – especializado em “assassinatos predeterminados” na província iraniana do Sistão-Baloquistão.

Esse é o caderno de notas de um jornalista apaixonante, às vezes intrigante, às vezes irritante, mas sempre magnífico jornalista, caderno que muitos lerão como um ‘diário’ do coração das trevas. Mas essa parte do mundo sobre a qual Saleem escreve é, de fato, das mais fascinantes, em termos sociais, antropológicos e até geológicos, de todo o planeta. O livro, sim, ganharia, se passasse por edição mais cuidadosa, que aparasse as redundâncias e deixasse ver mais claramente o contexto essencial.

Saleem pensava em urdu – e depois traduzia para o inglês. O Saleem em inglês que os leitores de Asia Times Online e de vários outros jornais conhecem é resultado de horas e horas de doloroso trabalho de edição do editor Tony Allison.

No final, o que realmente conta é que Saleem foi nosso ponto de fuga [orig. vanishing point [3]naquela paisagem. Não é livro sobre “o terror”. É a narrativa empenhada de um homem só, numa imensa terra de tribos, armado com sua forte bússola moral, à procura da verdade. Por isso Saleem foi assassinado por um estado que há dentro do estado do Paquistão. Não foi assassinado pelos pashtuns.

[1] Literalmente “queimando [o querosene?] da lâmpada da meia-noite”. É título de canção gravada por Jimmi Hendrix (1967). Em YouTube em . Letra em http://letras.terra.com.br/jimi-hendrix/17942/ [NTs]

[2] Entrevista exclusiva que Kashimiri deu ao jornalista Syed Saleem Shahzad: “Al-Qaeda’s guerrilla chief lays out strategy”, Asia Times Online, 15/10/2009, em http://www.atimes.com/atimes/South_Asia/KJ15Df03.html. Sobre o mesmo assunto, ver “Duas Estratégias Islamitas que se Opõem: A Al-Qaeda contra os talibãs”, Syed Saleem Shahzad, Le Monde Diplomatique, 6/7/2007, em http://pt.mondediplo.com/spip.php?article418 [NTs].

[3] “Vanishing Point” [em port. “Corrida contra o Destino”] é filme ‘de estrada’, cult, de 1971 (mais, sobre o filme, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Vanishing_Point) [NTs].

Fonte: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/pepe-escobar-a-verdade-sobre-o-%E2%80%9Caf-pak%E2%80%9D.html

O fim de uma época

O início do fim do ciclo político da velha mídia

Enviado por luisnassif, ter, 19/07/2011 – 09:24

Caso Murdoch, crise europeia, problemas da Obama, todos esses fatos estão interligados e expostos como sinal de fim de ciclo.

As principais características do ciclo anterior foram as seguintes:

A exemplo do ciclo financeiro do final do século 19, uma aliança entre setor financeiro e mídia visando implantar a ideologia financista, caracterizada por livre fluxo de capitais, privatização (ou concessões públicas) e fortes ajustes fiscais – incidindo sobre a população – visando preservar a capacidade de endividamento do Estado. Aliás, em momentos de transição o mercado de capitais tem papel fundamental. Mas quando leva a rédea aos dentes, coloca o país inteiro a seu serviço.

Essa aliança ganha enorme expressão política com a entrada de forças políticas associadas. Conforme expliquei em meu livro "Os Cabeças de Planilha", os políticos recebem ideias "salvadoras", financiamento para suas campanhas, poder financeiro e entregam, na contrapartida, as condições econômicas mais favoráveis ao capital financeiro. Ainda que à custa do sacrifício geral do país.

Com isso, financistas e mídia conseguem se tornar a força mais poderosa do país, sobrepondo-se muitas vezes ao próprio poder do Estado.

A pedra de toque do discurso de legitimação política é a famosa "lição de casa", brandida aqui por Pedro Malan e Antonio Palocci: sacrifiquem-se hoje e terão o céu amanhã. À medida em que sua influência se consolida, o jogo especulativo ganha dinâmica própria, afastando-se rapidamente das normas prudenciais. Resultam daí as crises, globais pela própria natureza internacionalista e de vasos comunicantes do capital financeiro.

O próprio movimento de internacionalização do capital acaba produzindo novos atores globais que passam a ameaçar os grupos midiáticos tradicionais. É nesse contexto que surge a fórmula Murdoch – seguida em muitos países e, no caso do Brasil, particularmente pela revista Veja. Consiste em utilizar a informação como arma política, sem respeitar limites éticos nem jornalísticos. Passa-se a recorrer sistematicamente ao escândalo, à manipulação das informações, ao assassinato de reputações e, no auge do processo, à mentira reiterada.

A opinião como arma comercial

A atividade econômica jornalística não tem como concorrer com outros setores da economia. Uma empresa jornalística tradicional tem que investir como indústria, tem intensidade de pessoal como o setor de serviços e uma estrutura de distribuição típica de varejo.

Numa ponta, a velha mídia tem que enfrentar os grandes grupos de entretenimento ou de telecomunicações. Na outra, vê seu poder de formação de opinião sendo erodido pelo avanço das outras formas de mídia, do exército das teles à guerrilha dos blogs.

Seu trunfo único é o poder político remanescente, angariado na etapa que está se encerrando. É nesse contexto que, à medida em que vê seu último trunfo erodindo, entra em uma espiral de virulência que, no caso do modelo Murdoch, a leva a ultrapassar os limites da legalidade. Conta com seu poder para intimidar o Judiciário, o Legislativo e o Executivo. E manipula como álibi jurídico o direito à informação – da mesma maneira que alguns advogados que usam as prerrogativas da profissão para atuarem como extensões de seus clientes. Como se mentir e assassinar reputações fossem norma constitucional.

O caso Veja é sintomático. Houvesse um Judiciário mais ágil e menos temeroso, há muito os abusos da revisia teriam sido obstados pela ação dos juízes.

Agora, nesse fim de ciclo há o questionamento do poder de influência do mercado (o impasse da União Europeia é típico) e, por tabela, do poder excessivo da mídia associada, que fugiu dos princípios tradicionais e enveredou pelo mundo do espetáculo do denuncismo ou mesmo pelas veredas do crime.

É o velho ciclo nos seus estertores mas, como um polvo agonizante, ainda com poder de fazer estragos com suas braçadas.

Fonte: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-inicio-do-fim-do-ciclo-politico-da-velha-midia

Navigare necesse est, vivere non est necesse

Os indignados e a nova época

Mauro Santayana

À insistência dos indignados espanhóis e catalães, e à continuidade das manifestações das massas nos países árabes, somam-se agora protestos, ainda discretos, de trabalhadores chineses. As contradições do capitalismo – mesmo subordinado ao Estado – começam a surgir no grande país, o maior fenômeno da sociedade industrial dos últimos tempos. Estamos diante de inevitável mudança.

Plutarco atribui a Pompeu Magno uma frase que, repetida por Ulysses Guimarães, foi emblemática no processo de transição política nacional: navigare necesse est, vivere non est necesse. A máxima do grande general escapou da circunstância, para se tornar forte símbolo da política. Ela nos incita a resistir. A vida, qualquer vida, é um processo de resistência, e mais ainda na política.

Segundo a versão, Pompeu que se encarregava de duas missões cruciais para Roma – a de limpar o Mediterrâneo dos piratas e, assim, assegurar o suprimento de cereais à grande cidade – incitou os marinheiros que, no porto de Siracusa, na Sicília, se recusavam a levantar velas, a embarcar e seguir. O céu estava carregado de nuvens sobre o estreito de Messina, a mais arriscada passagem marítima da Antiguidade. Obrigou-os a partir com a admoestação de que navegar era mais importante do que viver. Em Roma esperavam o trigo. Por isso, tinham que vencer o medo e as tempestades. Não há registro histórico de que aquelas naves tenham naufragado entre os rochedos e as correntes circulares do estreito. Chegaram, assim, ao porto de Óstia.

É forte a metáfora da navegação para explicar a vida e, especialmente a vida política. Governar é pilotar, manobrar o timão da nave, evitar os escolhos e as ondas perigosas, manter a disciplina no barco – enfim, chegar ao destino. Dessa forma devem proceder os indivíduos e as nações, embora as sociedades políticas sejam muito mais complicadas do que um barco, menor ou maior. É preciso buscar o equilíbrio entre a liberdade e a ordem, entre o Estado e a sociedade, entre a autoridade e o indivíduo. Trata-se de equilíbrio precário, com os pratos da balança oscilando a cada dia, em cada momento. Os sistemas de poder, mundiais e nacionais, costumam durar pouco, na História, que não aceita situações permanentes, embora isso não pareça aos contemporâneos de cada tempo.

As épocas saem umas das outras, como as bonecas russas. Não há rupturas absolutas. O Renascimento veio da Idade Média, como a Idade Média viera do Império Romano. O Iluminismo, a mais recente revolução histórica, não existiria sem o Renascimento, que lhe abriu as portas da percepção burguesa, para ficar na melhor interpretação marxista. Mas o Iluminismo está pedindo, agora, que de seu ventre venha nova época. Como época, em grego, significa intervalo, pausa, o Iluminismo – não obstante os processos internos de sua evolução – foi momento de relativa calma na longa história do homem. Mas iniciou sua decadência no alvorecer do século 20. Pouco a pouco, esgotou-se a capacidade intelectual que o fizera surgir. Salvo nas ciências exatas, que assombram o mundo com o seu poder inovador, a capacidade revolucionária do Iluminismo parece esgotada com Marx. Depois dele, só tivemos os que analisam o filósofo de Trier, seja para aceitá-lo, seja para repudiá-lo, mas não há pensamento novo que retorne à criatividade filosófica dos enciclopedistas e seus sucessores imediatos.

Esse é o desafio de nosso tempo. Os confrontos entre a prosperidade e a preservação da natureza; entre a babel libertária que significa a internet, e as ortodoxias, políticas ou teológicas; entre o mercado destruidor, e o necessário arbítrio regulador do Estado, além de outros, exige esforço de inteligência, do qual parecemos incapazes. Esse é o novo impasse histórico.

Fonte: http://www.conversaafiada.com.br/politica/2011/06/16/santayana-os-indignados-anunciam-o-novo-tempo/

FHC: direto da tumba

7 de junho de 2011 às 1:00

Maria Izabel: “FHC quer calar Lula”

FHC olha para trás, sempre

Maria Izabel Azevedo Noronha*

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) mais uma vez volta à cena (Novos desafios, O Estado de S. Paulo, 05/06) para fazer comentários e dar conselhos ao governo brasileiro.

Curiosamente o ex-presidente faz seus comentários como se jamais tivesse tido poder de mando no nosso país para aplicar todas as lições que agora quer dar aos atuais governantes. Na verdade, começa seu artigo reconhecendo que o Brasil ingressou no clube dos países que tomam decisões, mas faz esta constatação como se isto fosse um evento da natureza e não o resultado da aplicação de um projeto político que ele e seu partido combatem.

Na realidade o texto do ex-presidente serve para que ele novamente se insurja contra esse projeto, para dizer que a estratégia correta para o Brasil não seria o “projeto nacional”, pregando um nebuloso “consenso” da sociedade, sem dizer de que forma esse suposto “consenso” poderia ser construído e como se os demais países não tivessem projetos nacionais.

Na verdade o que o ex-presidente deseja é que o governo abdique de seu papel de governar e conduzir a nação, deixando o espaço aberto para que atuem as “forças sociais”, sem nenhuma mediação. É puro neoliberalismo e sabemos onde isso vai dar.

FHC também critica a política de alianças internacionais do Brasil, dizendo que não podemos nos limitar a este ou aquele parceiro. Ora, o Brasil nunca realizou alianças comerciais e políticas tão amplas no cenário mundial, o que, sabidamente, nos deixou em melhores condições de enfrentar a crise financeira internacional.

O que incomoda o ex-presidente do PSDB é que nosso país deixou de se limitar a um papel subalterno, no qual se deixava levar pelas diretrizes de algumas poucas potências e no qual ministros eram constrangidos a tirar seus sapatos e passar por vistorias em aeroportos dos Estados Unidos. Hoje o Brasil é protagonista no nosso próprio continente, na África, na Ásia, nos diálogos internacionais e na construção de uma relação mais equilibrada entre as economias mais desenvolvidas e os países em desenvolvimento.

Diz FHC em determinado trecho de seu artigo que “É imperativo inovar, não abrir mão da indústria e oferecer serviços em quantidade e qualidade em saúde, educação, transportes, finanças etc.”. Entretanto, no seu longo período de governo ele praticou o oposto, desnacionalizando nossa indústria, abrindo mão da nossa soberania e precarizando de forma drástica os serviços públicos essenciais.

Na sequência, Fernando Henrique Cardoso passa a criticar a democracia brasileira, dizendo que as decisões fundamentais são tomadas de forma autoritária, buscando outra vez uma descabida comparação entre os governos Lula e Dilma e a ditadura militar. O argumento, evidentemente, não procede. Poucas vezes no nosso país houve tanta liberdade.

O governo, os movimentos sociais e todas as forças que buscam o desenvolvimento nacional com justiça social são cotidianamente submetidos a verdadeiro massacre pela grande mídia e até mesmo por setores do poder judiciário. Mas a vida prossegue e a democracia está preservada, com todas as decisões fundamentais sendo debatidas e aprovadas pelo Congresso Nacional.

Finalmente o ex-presidente chega ao ponto fulcral de seu artigo, que é a tentativa de calar o ex-presidente Lula e, ainda, tentar opor a presidente Dilma a seu antecessor. Trata-se de uma vã tentativa, porque o governo Dilma é um governo de continuidade e está assentado sobre as bases implementadas em oito anos de construção do projeto nacional brasileiro.

FHC quer calar Lula quando ele próprio não se calou um momento sequer desde que deixou a Presidência da República. E geralmente utilizou o grande espaço que detém na mídia para buscar sempre atrasar o ritmo de desenvolvimento do nosso país. Se seus conselhos fossem seguidos, o Brasil certamente não ingressaria no “seleto clube dos países que tomam decisões” e permaneceria como “papel carbono” dos interesses das grandes potências, função a que foi relegado durante décadas por governos descomprometidos com o nosso projeto nacional.

*Presidenta da APEOESP, integra o Conselho Nacional de Educação e o Fórum Nacional de Educação

Fonte: http://www.viomundo.com.br/politica/maria-izabel-fhc-quer-calar-lula.html

Os gays e a Bíblia

Frei Betto: A Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hétero

Os gays e a Bíblia

por Frei Betto, em Amai-vos

É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos.

No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”…).

Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc).

No 60º aniversário da Decclaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.

A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu Catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.

Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hétero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.

São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a homofobia não se justifica apenas pela violência física sofrida por travestis, transexuais, lésbicas etc. Mais grave é a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.

A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama…).

Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?

Ora, direis ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.

Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?

Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.

Fonte: http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/frei-beto-a-igreja-nao-tem-o-direito-de-encarar-ninguem-como-homo-ou-hetero.html

Neoliberalismo no pensamento acadêmico: até quando?

O neoliberalismo no pensamento acadêmico

Enviado por luisnassif, qua, 25/05/2011 – 10:56 Por Gustavo Belic Cherubine

Será que nascer uma nova economia?

Do Instituto Humanistas Unisinos

“A doutrina neoliberal enjaulou a economia política”

A doutrina neoliberal enjaulou o livre pensamento da política econômica através do estudo criptografado de uma pretensa ciência exata. A academia está em dívida. Não apenas por não ter feito uma autocrítica, mas também porque avança no objetivo de formar economistas que não serão capazes de perceber as relações de poder. O comentário é de Mariano Kestelboim, economista e diretor da Fundação Pro Tejer em artigo no Página/12, 23-05-2011. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Na contramão do processo de recuperação da soberania nacional, iniciado após a grande crise da conversibilidade, a proposta de reforma no currículo de estudos da carreira de Licenciatura em Economia da Universidade Nacional de La Plata representa uma anacrônica tentativa de aprofundar nichos ao anti-desenvolvimentismo.

Por detrás da enganosa bandeira do liberalismo, se pretende incorporar no programa rigorosa matematização derivada de abstrações que funcionam sob supostas simplificações da realidade. Desse modo, os propulsores da reforma buscam retirar da disciplina boa parte do conteúdo social, político e histórico e os principais instrumentos metodológicos para o desenvolvimento de pesquisas.

A estratégia para encobrir as mudanças consiste em agregar um sistema de disciplinas optativas. De um total de quinze matérias sob essa nova modalidade, os alunos devem escolher dez para cumprir o programa. No entanto, das quinze matérias propostas como não obrigatórias, treze são de conteúdos sociais, ficando apenas quatro dessas sob o regime obrigatório de um total de vinte e duas matérias. Além disso, o plano do novo curso pretende continuar orientando as habilidades dos alunos para o desenvolvimento de projetos de lucro privado de caráter individual, apesar dessa fórmula ter alimentado a decadência da economia nacional.

As políticas economicas neoliberais, caracterizadas pelas regras de mercado como orientadoras do funcionamento da sociedade se impuseram no país a partir do terrorismo de Estado em meados dos anos setenta. A estratégia foi ampla, renomearam a economia política como ciência econômica e passaram a influenciar a imprensa, a cultura e a administração pública. Essas áreas foram complementares para cumprir o objetivo de desintegrar a indústria, romper com a organização operária, despolitizar a sociedade, exacerbar o consumismo promover o individualismo, controlar os recursos nacionais e desprestigiar o papel do Estado.

O surpreendente do poder anti-desenvolvimentista foi tanto o ocultamento das relações de força como também a permanência de sua legitimidade, apesar de sua ineficacia em responder a favor dos interesses nacionais nas crises. O paradigma neoliberal não foi capaz de oferecer explicações consistentes e propostas de mudança que não agravassem a crescente depressão e desigualdade social.

Na última fase da crise sobreveio o Plano Félix que se constituíu no primeiro espaço acadêmico que sem abandonar a lógica capitalista, se tratou de um plano – publicado em dezembro de 2011 – de recuperação da economia, afastando-se da ortodoxia.

A consolidação do neoliberalismo se conseguiu, principalmente, através do êxtase diante dos centros do poder mundial, de uma academia dominante e vazia de nacionalismo. Ela desacreditou a todos aqueles que a enfrentaram. A sua lógica discriminatória foi se fortalecendo através de prêmios (bolsas, subsídios e estágios) que as universidades das nações mais desenvolvidas deram aos graduados com melhores notas dos países periférico.

As inconsistências do modelo de estudo neoliberal fracassaram também no resto do mundo. A crise internacional atual e os enormes custos sociais são uma clara amostra da incapacidade da teoria neoliberal em prevenir as crises e projetar políticas que as resolvam. De fato, hoje, até no mundo desenvolvido essas questões estão sendo colocadas. Por isso tudo, o plano de estudos proposto revela uma grande desatualização por aqueles que o propõe.

Lamentavelmente os conteúdos debatidos na universidade platense, agravarão a desumanização do estudo da disciplina. A doutrina neoliberal enjaulou o livre pensamento da política econômica através do estudo criptografado de uma prentesa ciência dura. A academia está em dívida. Não apenas por não ter feito uma autocrítica, mas também porque avança no objetivo de formar economistas que não serão capazes de perceber as relações de poder.

Se pensarmos bem, veremos que não desenvolverão condições de cumprir o seu principal dever profissional: realizar pesquisas sobre os problemas existentes e planejar políticas que permitam alterar as relações de força para gerar mudanças estruturais de promoção do desenvolvimento.

Argentina. O fim do Consenso de Washington e a mudança dos cursos de economia.

Nos cursos de Economia de Universidades como La Plata, Córdoba, Rosario e Buenos Aires ainda se ensinam e se continua aprendendo que a Argentina deveria especializar-se na produção de matérias-primas e importar bens manufaturados, que é imperativo privatizar as empresas públicas e flexibilizar o mercado de trabalho. A análise é da equipe de Economia Política do Centro de Estudos para a Mudança Social e de integrantes do Agrupamento Unidade de Graduados de Economia (UNLP) em artigo para o Página/12, 23-05-2011. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A formação dos cursos de Economia nas universidades públicas em nosso país exige um debate. Qual tem sido o itinerário das licenciaturas na Economia nos últimos 35 anos? Por que tem sido assim? As coisas mudaram nos últimos dez anos? Irão mudar? Como se sabe, o plano da ditadura civil-militar, instaurado desde 1976 na Argentina abrangeu um vasto leque de objetivos entre os quais se destacam: a destruição da organização operária, a instauração de um modelo econômico liberal rentista e financeiro que abandonou a proteção social e o desaparecimento dos atores políticos que colocavam em questionamento a ordem vigente.

As unidades acadêmicas não foram exceção nisso tudo: muitos professores foram expulsos, perseguidos, assassinados ou desaparecidos, enquanto o currículo foi violentamente alterado. A outrora licenciatura em Economia Política deixou lugar à Economia, seco assim.

Desde então, os currículos foram adaptando-se ao projeto neoliberal e eliminando progressivamente as disciplinas de caráter social e buscando a identificação da Economia como ciência exata. Simultaneamente, se foram suprimindo as escolas de pensamento críticas à visão neoliberal. Separou-se o estudo do pensamento econômico do resto das matérias “práticas”, tais como comércio, desenvolvimento e macroeconomia; desta forma, as frutíferas discussões de toda a história do pensamento econômico se reduziram ao reduto do pensamento heterodoxo como sendo a “verdadeira economia” – as questões práticas passaram a serem estudas exclusivamente a partir do enfoque neoclássico.

Nos anos 90, o programa neoliberal apoiado por um governo constitucional exigiu na academia o aprofundamento da ortodoxia econômica. Foram dez anos de conversibilidade, e, não coincidentemente, uma década de receitas vindas de Washington. Para aumentar o emprego, mercado de trabalho flexível; para melhorar a eficiência dos serviços públicos, privatização da maior parte das empresas estatais; para apoiar a paridade 1-1 se gerou endividamento e dependência do FMI que para emprestar dinheiro exigia que se cumprisse redução dos gastos públicos e redução dos salários e pensões, etc. Estas medidas respondiam ao enfoque que nossas universidades públicas se encarregavam de ensinar e difundir, dissociando seus nefastos efeitos sociais das insuficiências teóricas da teoria dominante (neoclássica).

O ano de 2001 marcou uma reviravolta. Depois de 25 anos, as políticas de ajuste entraram em colapso na Argentina. A esse enredo adicione-se entre 2008-2009, a maior crise do mundo capitalista desde os anos 30 do século passado. Paradoxalmente, a ortodoxia carece de um corpus teórico relevante e consistente para explicar a crise, uma vez que se presume que os mercados são o equilíbrio. O que eles poderiam dizer desses modelos em nosso país, um dos laboratórios mais bem sucedidos em matéria de crise ao longo de seus 200 anos?

O que deveríamos esperar em matéria acadêmica nos últimos dez anos? Caída em desgraça a partir da crise, a teoria neoclássica apresentou “fichamentos” para abordagens alternativas em vários países do mundo e na América Latina em particular. No entanto, os Planos de Estudo dos cursos de Economia nas universidades do país (com exceção dos cursos que surgiram em algumas universidades da província de Buenos Aires, como por exemplo, a General Sarmiento), continuaram com a visão neoclássica tradicional instaurada a sangue e fogo pela ditadura e reforçadas pelo Consenso de Washington.

Os cursos de Economia de universidades como La Plata, Córdoba, Rosario e Buenos Aires ainda se ensinam e se continua aprendendo que a Argentina deveria "especializar" na produção de matérias-primas e importar bens manufaturados, que é imperativo privatizar as empresas públicas e flexibilizar o "mercado de trabalho. Soa insólito.

Atualmente, a Faculdade de Economia da Universidade Nacional de La Plata está prestes a mudar seus currículos, incluindo a sua licenciatura em Economia. A proposta é reduzir o número de matérias (35-32), em face de matérias optativas quase todas de conteúdo social (História do Pensamento Econômico, História da América Latina) e garantindo a permanência de disciplinas neoclássicas por definição (a chamada “Teoria dos Jogos” e todas as sucessivas microeconomia por conseguinte). Como se observa, espera-se intensificar a formação neoclássica entendida como a "economia real" em detrimento das visões de muitas das outras escolas de pensamento (o keynesianismo, o marxismo, a regulação, o estruturalismo, etc).

A crise internacional e as catástrofes sociais causadas pelas políticas neoliberais em países como Argentina e, mais recentemente, a Grécia e a Espanha, obrigam que este reduto acadêmico mesmo que vinculado aos preceitos que foram o furor há 15 anos que mude. Tanto por reparação histórica, como por necessidade de formar profissionais que incorporem diferentes visões de mundo e da economia política, a licenciatura em Economia deve renunciar à doutrina dogmática e avançar em uma formação que responda às necessidades da sua sociedade.

Fonte: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-neoliberalismo-no-pensamento-academico

FHC: o decadente teórico míope

Renato Rabelo: o elo perdido de FHC, o ideólogo da oposição

Em artigo publicado semana passada, para a revista Interesse Nacional, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso assumiu mais uma vez o papel de ideólogo da oposição.

Por Renato Rabelo

Ao tentar buscar a essência do movimento real da sociedade brasileira, FHC procura o elo perdido entre a realidade conforme ele a vê e a centelha que poderia colocar fogo na pradaria, tendo em vista a fragilidade da atual estratégia desorganizada e dispersa da oposição. Um pouco antes, o ex-governador Aécio Neves (PSDB-MG) já havia discursado da tribuna do Senado Federal, com pompa e circunstância, tentando se assenhorear – sem sucesso – da orientação principal da linha oposicionista.

Visão estreita do processo

Utilizando um formato quase acadêmico, o ex-presidente FHC literalmente joga a toalha acerca da possibilidade de a voz oposicionista tocar os corações e mentes das classes sociais menos favorecidas. Eis a primeira constatação de seu pensamento: sua visão de classe social – e o conteúdo básico da orientação oposicionista – somente teria condições de atingir os setores médios e não todos os setores da sociedade.

Ao negar a disputa pelo “povão”, não compreende que uma das grandes características de nosso tempo está na capacidade de autonomia subjetiva do que se compreende por povo brasileiro. Quando se afirma que sua visão parte de um pressuposto elitista, é porque está em função de a observação sobre o “público-alvo”: acreditar que as classes médias – antes de lutar pela manutenção de seu próprio status quo – seriam mais capazes que os setores populares de discernir entre o certo e o errado em matéria de política.

Esse raciocínio está fundamentado na presunção aristocrática de considerar o povo como uma simples massa de manobra ao bel-prazer deste ou daquele núcleo de poder, e que as políticas sociais do governo Lula funcionaram apenas como uma política de simples cooptação. É preciso levar em conta que o alargamento da base material desta grande massa foi não apenas um elemento de cooptação, e sim uma condição objetiva para a elevação da consciência social. E esse fenômeno atingiu em cheio uma linha política de oposição que sempre esteve desconectada dos mais profundos anseios populares no Brasil.

Este é o ponto: as massas populares – neste ciclo inaugurado pelo governo Lula – tiveram a chance de distinguir entre um governo que deu de ombros à aguda seca do Nordeste em 1998 e outro que pôs os interesses populares imediatos no leme da política cotidiana do governo. A universalização dos programas sociais é apenas a ponta do iceberg, que pode ser exemplificada também com outras iniciativas de envergadura, como a transposição do rio São Francisco e as oportunidades que se abrem com outras obras de infraestrutura e de reforma urbana na região.

A história e a política ensinam que uma visão estreita de mundo é fruto da exacerbação de um único aspecto da realidade como forma de explicar o todo. Creditar – como faz FHC – pura e simplesmente aos programas distributivos o sucesso de Lula prova que a oposição e seus lugares-tenente na mídia, na academia e no próprio aparelho de Estado ainda não conseguem enxergar além de seus horizontes. Tudo leva a crer que, a julgar por esse corte puramente metodológico, a oposição poderá continuar perdida por muito tempo.

A ausência de estratégia da oposição

Há que se concordar com FHC em pelo menos alguns pontos de sua análise. “Na verdade, falta-nos estratégia”, sentencia ele em seu texto; “refazer caminhos, a começar pelo reconhecimento da derrota”, indica o ex-presidente em outro trecho do artigo (sobre as três derrotas seguidas nas últimas eleições presidenciais). E recomenda ao final: “As oposições políticas (…), se nada ou pouco tiveram a ver com as múltiplas demandas do cotidiano, como acumularão forças para ganhar a sociedade?”.

Assim, FHC constata que a oposição está desbaratada diante de uma realidade que a atropelou e a pôs à deriva do curso político real. Subjetivamente falando, intenta convencer seu público de que ele e o governo foram sinônimos da porta de entrada do Brasil à era da “modernidade”. Busca advogar seu legado privatizante e o papel das privatizações como algo correto e em consonância com o tempo histórico.

Dá um pito em seus correligionários que não saíram em defesa de seu próprio legado, mas contraditoriamente busca denunciar a ideia de uma sociedade guiada por um “Chefe”, como forma de desqualificar a pessoa do ex-presidente Lula. Mas, na verdade, fez uma tentativa de demonstrar quem realmente expressa as bandeiras da “modernidade”. Falar de si mesmo, abertamente, poderia ser um exercício perigoso, mas, como ele mesmo coloca: “Agora Inês é morta…”.

Na verdade, o texto de FHC expressa uma visão de mundo em plena coerência com a adaptação que fez – no passado acadêmico – da “teoria da dependência”. Se para alguns esta teoria serve de baliza para a contestação das contradições e problemas dos países dependentes, da “lei do desenvolvimento desigual e combinado”, para FHC serviu como parâmetro de uma visão de país para quem o futuro estava em plena consonância com o próprio desenvolvimento do capitalismo central.

Daí sua quase louvação ao processo de “globalização” e à modernidade, como sinônimo de aderência a este processo. Os paradigmas econômicos e monetários de seu governo foram expressões exatas de como o Brasil deveria se comportar desde então. O Plano Real é o pedra de toque desta adesão completa a uma ordem internacional determinada pelo centro do sistema capitalista.

Muito se fala da estabilidade monetária e da “derrota” da inflação sob seu governo como um grande legado. FHC e seus aliados na imprensa fazem questão de transformar em senso comum esse discurso. O que poucos estão dispostos a discutir é o preço social e nacional que se pagou por essa “estabilidade”: 12 milhões de desempregados, destruição de cadeias produtivas nacionais inteiras, quebra do tecido social com a explosão da violência nas grandes cidades. Entre 1994 e 2002, o número de favelas no Brasil cresceu na mesma proporção que, acreditem, entre 1889 e 1990!!!

A precarização do trabalho é clara na participação dos salários na composição do PIB: segundo o Dieese, entre 1993 e 2002 a participação da massa salarial na composição do PIB caiu em 50%. Mas o príncipe dos sociólogos cita uma chamada “falta de estratégia” para caracterizar o Brasil de hoje. Parece irônico, mas foi no governo dele que todos os mecanismos de planejamento estatal passaram por um intenso processo de desmonte. Foi expressão disso a transformação do “combate à inflação” num mantra sagrado, objetivo a ser perseguido diuturnamente, mesmo à custa do pensamento de longo prazo.

É interessante, o homem que derrotou a inflação teve de conviver no final de seu governo com uma inflação de quase 30% ao ano e um dólar acima dos R$ 4. Essas condições macroeconômicas fizeram Lula se render a um grande ajuste monetário no início de seu governo, além de um salto de quase US$ 50 bilhões a ser pago ao FMI.

É preciso também não esquecer que a vitória de FHC em 1998 custou um empréstimo de US$ 48 bilhões e a consequente alienação da soberania monetária nacional muito bem descrita pelo jornalista norte-americano Greg Palast em seu livro A Melhor Democracia que o Dinheiro Pode Comprar.

Sobre a questão democrática

O tema da democracia foi uma referência recorrente em seu artigo. Mas qual democracia foi implementada por FHC? A democracia da criminalização dos movimentos sociais, da ocupação pelo exército de fábricas e refinarias em greve e da não permissão da participação popular na comemoração dos 500 anos do descobrimento do Brasil na cidade de Porto Seguro (com as cercanias apinhadas de policiais armados até os dentes)? Depois se coloca como o campeão da reforma agrária, com uma política de Estado iniciada no governo dele? Os massacres de trabalhadores rurais sem terra respondem por si. A prática é o critério primário para se chegar à verdade.

Ao longo do texto FHC se ressente da não defesa contundente por parte de seus aliados do “vitorioso” processo de privatizações, ou de “privataria”. O termo pode ser forte, mas como classificar um processo em que se privatizou e desnacionalizou com dinheiro público de um banco de investimentos (BNDES)? Em que lugar do mundo isso não seria passível de um processo penal?

Sobre a temática das privatizações ainda caberiam perguntas não respondidas pelo ex-presidente: qual a estratégia anexa no processo de privatização da Companhia Vale do Rio Doce a ponto de vender uma empresa deste porte por apenas US$ 3 bilhões?

A quebra do monopólio estatal do petróleo é uma estratégia genial ou seria parte do curso natural dos “acontecimentos”, dada a própria necessidade da empresa de se tornar global? O governo dele só intencionava essa abertura de capital ou queria ir além, chegando ao ponto da completa desnacionalização sintetizada no nome fantasia Petrobrax?

Se tivesse alcançado seu intento, qual seria a posição do país diante das descobertas do pré-sal? Em nome de uma “ideologia globalizante” deveríamos abrir mão do controle público do processo? Em que lugar do mundo o Estado não tem controle público de um processo dessa magnitude?

A crítica à atuação do PCdoB no governo

A certa altura do artigo, FHC aponta baterias contra o Partido Comunista do Brasil e sua atuação no governo federal. Estes ataques injuriosos e despropositados em relação ao PCdoB são — como bem disse o dirigente Haroldo Lima — “coisa de quem gostava de o PCdoB ser sempre um partido pequeno, que não crescia, que não tinha papel político a jogar no Brasil e, por isso, ele até cortejava o PCdoB, como aconteceu na época em que eu era deputado federal e ele era senador, em que nós éramos sempre os complementos, uma coisa muito secundária. Então não tinha problema. Quando nós agora passamos a participar do governo, a ter expressão eleitoral — pois expressão social sempre tivemos —, então alguns setores ficam muito insatisfeitos com esse fato. Ficam querendo que o PCdoB fosse sempre uma corrente muito minoritária, ficam insatisfeitos com esse fato e passam a determinar que isso é fruto de clientelismo”.

Em relação à afirmação de que a presença de um dirigente do PCdoB na direção da Agência Nacional de Petróleo embota a capacidade da ANP, o diretor Haroldo Lima é categórico ao afirmar isso como uma completa distorção da verdade. “Se quisermos ir a fundo, a ANP hoje tem uma capacidade controladora muito maior do que a que existia na época de Fernando Henrique Cardoso. Para se ter uma pequena ideia, na época em que FHC era presidente da República, a ANP não tinha uma Superintendência de Fiscalização, a adulteração no país corria solta, inclusive porque a ANP não se colocava como tarefa impedi-la. Foi comigo na direção que foi criada a Superintendência de Fiscalização. E a adulteração que na época de FHC era da ordem de 10 a 12%, em média, no Brasil – o que era um escândalo – passou a ser de 1 a 2%, como é hoje. Então, o controle, hoje é que está tendo”, argumenta.

“Ele fica (Fernando Henrique) tentando assim dizer, que nós estamos beneficiando a Petrobras. Na verdade, estamos beneficiando a Petrobras onde ela precisa ser beneficiada, que é na descoberta do pré-sal. Se o presidente fosse FHC na época da descoberta do pré-sal, teríamos perdido o pré-sal para o Brasil. Isso é verdade, nisso ele está certo. O que nós fizemos foi suspender o processo de leilões no Brasil naquele período, para – naquela região, naquele polígono do pré-sal – mudarmos o marco regulatório e estabelecer um marco regulatório que privilegia a Empresa Brasileira de Petróleo, que é a Petrobras. Isso nós fizemos mesmo, e fortalecemos a Petrobras”, reafirma Lima.

Já a participação do PCdoB no Ministério do Esporte — também criticada pelo ex-presidente — é reconhecidamente uma contribuição positiva. Primeiro por transformar o ministério em algo digno desse nome, com políticas públicas provadas de desenvolvimento social e de inclusão especialmente da juventude brasileira em vários programas basicamente administrados pelos estados e municípios. Depois, por tais programas terem sido os principais fatores de conquista de dois dos maiores eventos mundiais para o Brasil: a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Sem falar em tantas outras contribuições na área do ministério da articulação política, que Aldo Rebelo ajudou a constituir, e na área da Cultura, com a criação dos Pontos de Cultura, da direção da Finep, da Ancine, da Anvisa, do Ministério da Saúde e da própria ANP.

O antigo presidente — sociólogo, intelectual e agora ideólogo da oposição — pode estar sofrendo da doença de muitos que se julgam incompreendidos pela história: incapacidade de olhar criticamente para si próprio e suas realizações. Antes de colocar em questão os avanços do país nos últimos oito anos e as contribuições ao avanço democrático e social do PCdoB ao ciclo político inaugurado por Lula, e agora continuado por Dilma, ele deveria se perguntar a razão de ele ter se tornado uma figura tão desgastada aos olhos do povo brasileiro. Deveria estar pronto para aceitar a condição de persona non grata para milhões de brasileiros.

Evidentemente, de acordo com o raciocínio revelado ao longo de seu artigo, o povo é uma massa carente de instrumentos para analisar tanto a história como a realidade, e “ele” olimpicamente reúne todas as condições para um veredito final sobre as questões de seu tempo.

fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=152597&id_secao=1

Medidas macroprudenciais

Delfim Netto: Ambição incontrolável

Ambição incontrolável

por Delfim Netto, naCartaCapital, 27.04.2011

Um número crescente de leitores de jornais e revistas voltou a comentar as ideias e discutir os argumentos de artigos e análises que tratam de política econômica. Isso no momento em que se trava uma discussão bastante nervosa em torno das taxas de inflação.

Há opiniões de gente do governo (e também de fora) que o momento não é propício a uma ampla discussão pública do problema, porque isso poderia deteriorar ainda mais as expectativas inflacionárias.

Concorda que essa é uma preocupação importante, mas a ampliação do debate hoje é necessária para que não prevaleça o pensamento único imposto à imprensa por grupos restritos que se julgam portadores de uma ciência econômica que, na verdade, não existe.

“Cientificamente”, os vastos recursos do sistema financeiro influem decisivamente na construção das expectativas de inflação.

São elas que dão o suporte necessário à elevação das taxas de juros.

Nosso papel é insistir em questionar esse mecanismo de criação das expectativas que o Banco Central acaba sancionando. No final, oficializa a estimativa de inflação que é do próprio sistema financeiro. Quando criticamos esse mecanismo, não estamos dizendo que a taxa de juros não é um instrumento válido para combater a inflação, mas sim que este é um processo perverso que pode pôr em xeque a própria democracia: quem controla a mídia acaba impondo a sua vontade.

Vivemos um período relativamente longo (nos anos que antecederam a eleição de Lula) em que o debate econômico estava interditado. Com a “virada de agenda” em favor do crescimento com inclusão social, parece ter renascido o interesse em discutir a política econômica de forma ampla, sem restrições.

Não há nenhuma razão para acreditar que a utilização da taxa de juros não possa ser acompanhada de medidas macroprudenciais no combate à inflação. Em um mundo ideal, em que tudo caminha bem, sem atritos ou restrições de qualquer natureza, a taxa de juros era uma coisa fantástica: bastava apertar um botão e ela subia, colocando a inflação no nível que o Banco Central desejava. Hoje, ninguém mais acredita que os bancos centrais saibam como controlar a inflação ou defende a ideia de que só existia um instrumento para fazê-lo. Nem mesmo os economistas do FMI manifestam essa crença.

Seguramente, o que se espera é que os Bancos Centrais prestem atenção em pelo menos três coisas:

1. A higidez do sistema financeiro, no que o nosso Banco Central foi mestre.

2. O controle da inflação, sobre o que tenho minhas dúvidas.

3. A utilização de medidas macroprudenciais.

No mundo real onde vivemos, cheio de complicações, é preciso observar primeiro se a elevação da taxa de inflação no Brasil é simplesmente produto de um excesso de demanda interna ou se ela é mais a consequência de um descompasso entre procura e oferta na estrutura interna do setor serviços.

Por mais que se queiram ignorar os fatos, a verdade crua é que o nível da taxa de juros brasileira propicia uma arbitragem que é incontrolável.

O governo está usando alguns instrumentos para reduzir o ritmo da sobrevalorização que ela permite. Mas não devemos ter dúvida, mantendo-se as oportunidades de arbitragem, a valorização não para. P que singifica que setores que produzem e precisam exportar vão continuar sofrendo imensos prejuízos.

As consequências são terríveis para a nossa indústria e logo também poderão infligir danos à agropecuária. Por enquanto, o campo se defende porque os preços externos dos alimentos estão nas alturas. Até quando vão continuar assim é impossível prever. O agronegócio poderá sentir menos que os demais setores os efeitos da variação cambial, porque o dólar terá de se ajustar no momento em que os preços agrícolas caírem. Mas ainda deve demorar um pouco.

Já há, contudo, alguns sinais de mudança na atitude dos organismos internacionais, indicando a possibilidade de se estabelecerem controles sobre o movimento de capitais. Há pouco mais de duas semanas, o FMI admitiu que, em “circunstâncias específicas”, o controle do fluxo de capitais pode vir a ser uma das ferramentas da política econômica dos países que estão sofrendo por causa da supervalorização de suas moedas.

Esses países não devem continuar a ser obrigados a assistir passivamente à erosão de sua base industrial sujeita à competição desleal de países mais espertos.