As “experiências médicas”

Do Alabama à Guatemala – as temíveis experiências médicas do governo dos EUA

Entre 1932 e 1972, o governo dos EUA levou a cabo estudos sobre os efeitos da sífilis, infectando centenas de pessoas e não as tratando. Dois antigos projetos do governo norte-americano em Tuskegee, (Alabama) e Guatemala (igualmente nocivos) são espelho um do outro. Ambos mostram a que extremo se pode ignorar a ética a fim de obter conhecimentos médicos.

Por Amy Goodman
[26 de outubro de 2010 – 10h24]

Há pouco mais de duas semanas foi publicamente revelado que o governo dos Estados Unidos infectou a sífilis em centenas de homens da Guatemala no marco de macabras experiências desenvolvidas durante a década de 1940. Mal veio à tona a notícia, o presidente Barack Obama telefonou ao presidente da Guatemala, Álvaro Colom, para se desculpar. Colom qualificou as experiências de “uma incrível violação dos direitos humanos”: “É uma violação de direitos humanos incrível, mas existiu e é preciso enfrentá-la… e vamos fazer todo o necessário para esclarecer o mais rápido possível que profundidade teve e que efeitos humanos teve, porque nos interessam fundamentalmente os afetados e nós como Estado, pois, estamos obviamente… indignados… e se houver autoridades do passado envolvidas também será revelado.” Colom afirmou além disso que o seu país avalia a possibilidade de levar o caso a um tribunal internacional.

As revelações surgiram devido a uma investigação levada a cabo pela historiadora médica Susan Reverby, do Wellesley College, a respeito dos tristemente célebres estudos de Tuskegee sobre a sífilis. Os dois antigos projetos de investigação do governo norte-americano em Tuskegee, (Alabama) e Guatemala (igualmente nocivos) são espelho um do outro. Ambos mostram a que extremo se pode ignorar a ética a fim de obter conhecimentos médicos, e ambos nos recordam que a investigação médica precisa constantemente de supervisão e regulação.

Reverby é autora do livro recentemente publicado “Examining Tuskegee,” (Examinando Tuskegee), uma exaustiva história da investigação sobre a sífilis conhecida como “Estudos de Tuskegee”.

Tuskegee, no estado de Alabama, encontra-se no coração do Sul Profundo (Deep South) dos EUA. Desde 1932, e até ser revelado pela imprensa em 1972, o governo dos Estados Unidos levou a cabo estudos de longo prazo sobre os efeitos da sífilis quando não é tratada. O estudo consistiu em dizer a quatrocentos homens com sífilis que receberiam um “tratamento especial” para o seu “sangue mau.” Sem que estes homens soubessem, recebiam placebos inúteis, mas não a cura prometida. E o enfraquecimento dos seus corpos, causado pela sífilis não tratada, foi estudado durante décadas. Em fases avançadas, a sífilis pode ocasionar desfiguração, demência, cegueira e dor aguda crônica. É uma maneira horrível de morrer. Durante os anos em que se desenvolviam estas experiências, foi descoberto que a penicilina curava a sífilis.

No entanto, estes homens infectados não foram informados da possível cura, e cada vez que algum deles pedia tratamento, era-lhe negado.

Em Tuskegee, os homens infectados não receberam tratamento. Na Guatemala ocorreu o contrário.

Lá, os pesquisadores do governo dos Estados Unidos infectavam com sífilis os prisioneiros e depois tratavam-nos com penicilina para medir os efeitos do antibiótico imediatamente após a exposição à doença. A sífilis é uma doença de transmissão sexual e era desta maneira como o médico que encabeçava as operações, o dr. John Cutler, do Serviço de Saúde Pública dos Estados Unidos, tentava infectar aos prisioneiros. A historiadora médica Susan Reverby descreveu as experiências da seguinte maneira: “Foram à Guatemala porque a prostituição era legal nesse país e também era legal levar prostitutas às prisões para serviços sexuais. Quando não puderam gerar a infecção ao nível esperado com a ida de prostitutas às cadeias, começaram as incubações… Há uma razão pela qual a sífilis é uma doença de transmissão sexual. Não é possível simplesmente extrair sangue de uma pessoa com sífilis e injetar noutra. De fato, é necessário criar uma vacina. A bactéria que causa a doença pode morrer ao ter contato com o ar, é por isso que deve passar através de líquidos e fluídos corporais e é por isso que se transmite sexualmente. Criaram uma vacina utilizando as provas de campo com coelhos que já tinham a doença. Raspavam ou rasgavam os braços de pessoas nas prisões, asilos psiquiátricos e instalações do exército. Utilizaram os seus braços, as suas bochechas, além disso buscaram homens, e francamente esta parte parece-me completamente incrível e faz que tudo se pareça parte de um filme classe B. Encontraram homens com prepúcios longos, tomavam os seus pênis, puxavam o prepúcio para trás, raspavam a glande e aplicavam-lhes a vacina usando um pequeno chumaço de algodão com gazes. Faziam isto durante uma hora e meia ou duas horas, com a esperança de que a infecção se transmitisse dessa maneira.”

Procedimentos similares foram utilizados com pacientes psiquiátricos e soldados.

Ironicamente, o estudo na Guatemala começou a ser desenvolvido em 1946. Este foi o mesmo ano em que os tribunais de Nuremberg pela primeira vez julgaram médicos nazistas, acusando-os de levar a cabo experiências horríveis com prisioneiros em campos de concentração. A metade dos acusados foi condenada à morte. Durante o processo, criou-se o Código Nuremberg, que estabelece padrões éticos para a experiência médica com humanos e a obrigatoriedade do consentimento informado. Mas, ao que parece, os pesquisadores norte-americanos não se importaram com Nuremberg.

O Dr. Cutler, responsável pelo projeto na Guatemala, participou depois dos estudos de Tuskegee. Num documentário da PBS “NOVA” de 1993, chamado “Engano mortal”, ele afirmou: “Era importante que não recebessem tratamento, e não teria sido desejável seguir adiante e receitar-lhes grandes doses de penicilina para tratar a doença, já que isto poderia ter interferido no estudo.” O Dr. Cutler morreu no ano 2003.

O governo dos Estados Unidos com frequência tem levado a cabo experiências sem o consentimento informado dos sujeitos afetados. Nas mulheres de Porto Rico, foi injetado estrogênio em níveis de risco enquanto estavam a ser testadas as pílulas anticoncepcionais.

Noutras investigações, injetou-se plutônio, em pacientes hospitalizados que não se tinham oferecido como voluntários, para estudar os efeitos desse elemento no corpo humano. As corporações transnacionais da indústria farmacêutica, Dow Chemical e Johnson & Johnson, de comum acordo com as autoridades penitenciárias da Pensilvânia, expuseram os presos aos riscos de produtos químicos nocivos, entre eles dioxinas, com a intenção de testar os seus efeitos. Muitas das pessoas submetidas a este tipo de experiência têm morrido ou veem as suas vidas destruídas de forma permanente. Tudo isto em nome do progresso ou dos lucros.

Os pesquisadores apressadamente declararam que estas práticas são coisa do passado e que vêm dando lugar a orientações estritas para assegurar o consentimento informado dos sujeitos. No entanto, são feitos esforços para suavizar as restrições em casos de experiência médica em presídios. Seria necessário perguntar o que significa “consentimento informado” dentro de uma cadeia, ou numa comunidade pobre onde o dinheiro é utilizado como incentivo para “se oferecer” como voluntário para uma pesquisa. A investigação médica só deveria acontecer quando são respeitados padrões éticos humanitários, e conta com consentimento informado e supervisão independente. Isto no caso das lições de Nuremberga, Tuskegee e agora Guatemala terem tido algum significado.

Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna.

Texto traduzido da versão em castelhano e revisto do original em inglês por Bruno Lima Rocha; originalmente publicado em português em Estratégia & Análise. Adaptado para Portugal pelo Esquerda.net.

Fonte: http://www.revistaforum.com.br/noticias/2010/10/26/do_alabama_a_guatemala_-_as_temiveis_experiencias_medicas_do_governo_dos_eua/

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